Sobre amar diferente

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Se existe uma verdade sobre o amor é a de que cada um ama à sua maneira. E, também, de que podemos amar diferente a depender do nosso momento de vida e da pessoa amada. O amor está sujeito ao tempo, ao outro, à proximidade, à distância, ao lugar, à química, ao acaso, à busca, ao esforço, à entrega, ao medo, à coragem. Quando olho para trás, vejo que parte de mim ama diferente – e não só na comparação entre um ex-amor e o atual amor. Talvez eu ame de outro jeito, hoje, também as mesmas pessoas, aquelas eternas. Porque já fui mais dura e menos flexível. Mais possessiva e menos dependente. Inclusive, sobre a dependência: quanto mais convivemos, felizes, com o nosso par, mais desejamos a sua presença. Nem tudo é maturidade: com o passar dos dias e o convívio crescente, nos agarramos ao outro, posse do ser que não é a gente, mas quase. Romeu, enlouquecido de amor por Julieta, declarou:

          A sua flecha foi tão fundo em mim

          Que não dá pr’eu voar com suas penas.

          Não alcança mais alto que um suspiro,

          ‘Stou me afogando ao peso desse amor.

Existe formas mais tradicionais e mais ousadas de amar. O amor de Shakespeare, romântico. O amor de Sartre, livre. Os escritores há muito criam e recriam o tema. Na literatura, na filosofia, nas artes: o amor é sempre o assunto principal, o paraíso em alguns, a razão do conflito em outros. As duas, na realidade, coexistem. Na maioria das vezes, o amor não é lago com águas lisas e fronteiras claras. É, antes, um oceano de águas com ondulações constantes e de horizonte infinito. Ainda se fosse água: que pudesse ser sempre transparente – a característica que mais prezo no amor. E, sabemos, tão rara ou tão perecível. Na sociedade líquida de Bauman, o autor que apelidou assim os nossos tempos, vivemos relações que nos escorrem rápido, entre encontros relâmpagos, Tinderianos e tempestuosos, feito casamento de celebridade (este que não é regra, mas muito frequente, via tantos exemplos por aí). Nada de errado. O nosso mundo, além de menos fronteiras e tantas regras, também está cheio de novas tentações, experiências que brotam virtuais, reais, imaginárias, ao passo de uma piscada, de um clique dizendo aceito, vamos ver qual é. O que eu penso sobre isso? Eu, uma conservadora Shakesperiana? Apesar da superficialidade das relações que me assustam, por outro lado reconheço a facilidade do encontro. Aumentaram as nossas chances. A internet, com a geolocalização, o outro, com a sua disponibilidade. E, romancista que sou, desejo que estes encontros durem o tempo que tiverem que durar para valerem a vida.

Viva o amor.

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