Papai Noel,

Merry Christmas

Quero imaginar que você existe de verdade. Que não se trata de fantasia, mas de um bom velhinho desse tipo que são os homens com mais de setenta anos. Já sei que o seu olhar é doce como o de um elefante e o seu sorriso é discreto, porém caridoso: aquele que parece desenhado para nos fazer carinho e dizer “sim, eu a entendo, minha filha”. Porque os bons velhinhos sempre chamam os outros de filhos e filhas, mesmo se tratando de netos e bisnetos.

Quero imaginar que dentro do seu saco vermelho tenham milhares de bons bilhetes como escreveria um bom velhinho:

• Ame a si mesmo verdadeiramente • Perdoe um amigo que a magoou • Doe-se sem esperar nada de volta • Respire fundo antes de uma briga • Entenda um outro ponto de vista • Peça desculpas sem medo • Elogie abundantemente • Abrace mais! • Beije mais!

O.K., esse último conselho soou estranho, porque eu não consigo imaginar você, Papai Noel, me dizendo para beijar. Seria como ouvi-lo do meu avô, ou do papai, o que é impossível, pois nenhum deles me desejaria isso. Mas, supondo que do saco vermelho saiam essas palavras, eu também gostaria de imaginar um saco com objetos a serem distribuídos infinitamente: livros para as crianças, roupas que estão na moda para as garotas, tênis para os meninos, telefones celulares com WhatsApp ilimitado para conectar amores e amigos, casas para as famílias desabrigadas, chocolates de todos os tipos (bombons, brigadeiros, brownies, bombinhas, trufas, barras, ovos – eu sei, eu sei, é Natal e não Páscoa, mas chocolate em qualquer época do ano deixa a vida mais alegre).

Está certo, Papai Noel: a primeira lista faz mais sentido e a segunda parece desnecessária. Mas isso é porque eu, que redijo essa cartinha a você, os leitores e a maioria das pessoas ao meu redor, já têm cada objeto descrito nela. Quem não tem, se tivesse, sofreria menos e sorriria mais. E, no Natal, sorrisos são presentes indispensáveis.

A verdade é que não tenho mais cinco anos e que o desmascarei há muito tempo (foi justamente quando beijei uma máscara de plástico e a senti bastante diferente do toque de uma pele enrugada pelo tempo e pelo frio da Groenlândia).

Acreditar na sua existência não passa de uma nova tentativa de crer no amor. De renovar a crença naquilo que, eu sei, devo praticar mais. Praticar em dobro, ainda que por aí pratiquem menos do que eu.

Se você existisse mesmo, como suas lendas me contaram, sei que pediria para não só praticar o amor a quem amamos fácil, porque mora juntinho ou muito perto. Acreditar no amor e ampliálo para a bondade, a solidariedade, a compaixão e a empatia – todas palavras que valem espiar no dicionário e relembrar seu significado. Ei, Papai Noel, pode mandar centenas deles no saco?

Perdoe-me a confusão. Ora admito sua inexistência, ora volto a me iludir sobre ela. O que importa, meu senhor, é que o Natal traga mais dele, muito mais dele, o amor.

Ass.: eu, sua Filha Noel.

Annie Müller – 07.12.2015

 

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