Categoria: Escritos

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Sobre amar diferente

Se existe uma verdade sobre o amor é a de que cada um ama à sua maneira. E, também, de que podemos amar diferente a depender do nosso momento de vida e da pessoa amada. O amor está sujeito ao tempo, ao outro, à proximidade, à distância, ao lugar, à química, ao acaso, à busca, ao esforço, à entrega, ao medo, à coragem. Quando olho para trás, vejo que parte de mim ama diferente – e não só na comparação entre um ex-amor e o atual amor. Talvez eu ame de outro jeito, hoje, também as mesmas pessoas, aquelas eternas. Porque já fui mais dura e menos flexível. Mais possessiva e menos dependente. Inclusive, sobre a dependência: quanto mais convivemos, felizes, com o nosso par, mais desejamos a sua presença. Nem tudo é maturidade: com o passar dos dias e o convívio crescente, nos agarramos ao outro, posse do ser que não é a gente, mas quase. Romeu, enlouquecido de amor por Julieta, declarou:

          A sua flecha foi tão fundo em mim

          Que não dá pr’eu voar com suas penas.

          Não alcança mais alto que um suspiro,

          ‘Stou me afogando ao peso desse amor.

Existe formas mais tradicionais e mais ousadas de amar. O amor de Shakespeare, romântico. O amor de Sartre, livre. Os escritores há muito criam e recriam o tema. Na literatura, na filosofia, nas artes: o amor é sempre o assunto principal, o paraíso em alguns, a razão do conflito em outros. As duas, na realidade, coexistem. Na maioria das vezes, o amor não é lago com águas lisas e fronteiras claras. É, antes, um oceano de águas com ondulações constantes e de horizonte infinito. Ainda se fosse água: que pudesse ser sempre transparente – a característica que mais prezo no amor. E, sabemos, tão rara ou tão perecível. Na sociedade líquida de Bauman, o autor que apelidou assim os nossos tempos, vivemos relações que nos escorrem rápido, entre encontros relâmpagos, Tinderianos e tempestuosos, feito casamento de celebridade (este que não é regra, mas muito frequente, via tantos exemplos por aí). Nada de errado. O nosso mundo, além de menos fronteiras e tantas regras, também está cheio de novas tentações, experiências que brotam virtuais, reais, imaginárias, ao passo de uma piscada, de um clique dizendo aceito, vamos ver qual é. O que eu penso sobre isso? Eu, uma conservadora Shakesperiana? Apesar da superficialidade das relações que me assustam, por outro lado reconheço a facilidade do encontro. Aumentaram as nossas chances. A internet, com a geolocalização, o outro, com a sua disponibilidade. E, romancista que sou, desejo que estes encontros durem o tempo que tiverem que durar para valerem a vida.

Viva o amor.

2017 08 Coluna Todateen Agosto - Detetives

Detetives

Cresci observando. As pessoas, seus jeitos; o mundo, seus modos. Dizem que é coisa de escritor. Eu penso que, antes, é característica dos curiosos. Uma pessoa curiosa é mais interessante aos olhos dos outros e vive com mais intensidade a própria experiência por aqui. A curiosidade é a melhor amiga dos bons estudantes, dos profissionais de destaque, dos criativos, dos viajantes. Pessoas curiosas agem feito detetives: sempre atentas ao que os olhos comuns não conseguem ver. É como se elas enxergassem além: interpretam as entrelinhas, escutam o não-dito, são íntimas da sua imaginação.

A primeira escola da curiosidade é a infância. Com o mundo inteiro para explorar, crescemos crianças em cima de dúvidas e atrás de certezas. Mas é no colégio, o palco das aventuras, que muitas vezes nos aquietamos ao invés de questionar, nos escondemos enquanto as perguntas persistem, agitadas, dentro da gente. Porque somos naturalmente inquietos. A curiosidade é como um inseto que não nos deixa dormir. E a nossa missão é justamente dar atenção a ela, escutá-la e não nos bloquear por causa do medo, da vergonha ou de alguém desanimado. A irmã mais velha da curiosidade é justamente a motivação. Pessoinhas que vivem os seus dias assim viram perguntadoras natas. Adultos maduros em conhecimento. Farejam o novo na sala de aula, em casa, na internet. Não acessam apenas o Facebook ou o Instagram: tem o Google como fonte dos maiores mistérios. Você já pensou sobre os sites que acessou hoje? Gosto de me fazer essa pergunta com frequência. Porque, na maioria das vezes, entro nos canais de sempre, sem me arriscar. E existem mais de um bilhão (!!!) de sites na internet. Que tal descobrir um novo por semana? Se aproveitarmos mais a rede, o nosso ser curioso agradece.

Motivados e curiosos, também atraímos mais amigos e amores. O escritor israelense Amós Oz, em recente palestra pelo Brasil, disse que “as pessoas curiosas são, inclusive, melhores amantes”. Amante: aquele que é apaixonado por alguém ou alguma coisa. Curiosidade, motivação, paixão: a graça dos dias mora nelas. É por isso, queridas amigas, que a inquietude interna de cada um de nós nunca pode desaparecer. Despreguice-se, jogue-se em indagações e leituras, fareje os cheiros na rua como faz o seu cão (bem, não é exatamente isso, mas você me entendeu, certo?). O nosso planeta é gigante e nos espera para desbravá-lo nessa contínua evolução que é viver. E, sem dúvida, só evoluem os seres com muita, muita sede.

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Vida real

Nos acostumamos a pensar que a vida é o Facebook. Afinal, tudo por ali passa, o dia de hoje e as memórias, feito arquivo em real-time. E, apesar da rede ter se difundido há apenas pouco mais de cinco anos no Brasil, ela ganhou o espaço de todos nós numa dimensão que a internet nunca tinha alcançado antes. Claro que, hoje, diferente de um tempinho atrás, não separamos mais o mundo on e off-line. E, assim, também não nos parece mais fazer sentido perguntas como “quanto tempo você passa no computador?” se estamos grudados no celular o dia inteiro. Enquanto conversamos aqui, esteja você me lendo na revista ou depois no blog, estamos vivendo pensamento e emoções em carne e osso, tudo junto, a mesma coisa.

O que me pergunto, volta e meia, é se a nossa vida real não virou só vida social. Não que seja um problema grave: depende do que queremos, do que representa a felicidade para cada um. É feliz passando horas no FB? Bem, então, que seja, relaxe, entregue-se. Mas, acontece comigo, e talvez com você, de entrar para dar uma espiadinha (motivada pelas atualizações incessantes que nos chegam a cada instante) e, de repente, me encontro por horas afundada na página, respondendo às mensagens dos amigos, curtindo, comentando, compartilhando, postando freneticamente comentários e pequenas histórias, fuçando a vida de um e de outro. Não que este assunto seja novo. Mas sempre vale um novo alerta: se você, como eu, passa mais tempo na rede no modo automático do que no prazer de entrar por escolha consciente, do tipo “vou lá ver a Gabi que está de aniversário”, então, talvez, a vida social tenha engolido a sua vida real.

É quanto a gente perde o limite saudável, passando um tempo online muito superior ao que curtirmos ao ar livre, que, talvez, esta história de separar um do outro (on X off-line) talvez ainda faça sentido, contradizendo o que falei logo acima. Mais do que separar: coexistir é o maior desafio. Porque enquanto jantamos/comemos/conversamos estamos vidrados nas telas tão viciantes. Esta característica que já nos pertence, aquela da criança que nasce trocando o vídeo no Youtube, é a perigosa tentação do “eu posso tudo ao mesmo tempo”. A Annie, aqui, se iludiu com ela: quantas falas eu perdi, entre aulas e reuniões, por estar com a cabeça não no mundo da lua, mas no mundo do Mark Zuckerberg. Na vida real, a gente vive pele com pele, olha no olho, beijo na boca, abraço apertado. Na vida social, o tempo passa mais devagar. Com atenção aos detalhes. Foco no momento. Por isso, precisamos dela. Quente, intensa, vida que pulsa. O nosso dia a dia não basta atrás das telas. Precisamos ser seus protagonistas, puxando a frente, apresentando a programação, atuando de forma completa.

2017 05 Coluna Femininas e feministas

Femininas e feministas

O tema está em alta. Demorou, mas veio para ficar. As mulheres e suas vozes. As mulheres e sua liberdade. As mulheres sendo mulheres, com as alegrias e as frustrações, mas, finalmente, com maior espaço para atuar num mundo que sempre foi tão masculino.

 

Eu sou uma mulher de sorte. Na minha família, à minha volta, o machismo nunca imperou. Meu pai é o meu maior exemplo em favor da igualdade de gênero. Nunca se discutiu, em casa, o que uma mulher poderia ou não fazer. Nunca se permitiu ou restringiu alguma ação. Simplesmente as oportunidades e os acessos sempre foram iguais – sendo eu filha menina e meu irmão garoto, sendo minha mãe quem é – uma líder incansável e páreo duro com o meu pai. Então, é difícil eu entender o tamanho do problema. Não o sinto na pele, e quando sentimos na pele, tudo fica mais compreensível (e muito mais dolorido, verdade). No entanto, em qualquer canto do nosso país, as provas machistas se dão diariamente: mulheres recebem cantadas agressivas e são violentadas. Ainda hoje, os salários são 30% menores do que os homens em funções profissionais semelhantes.

 

Quando eu tinha 14 anos, representei a minha escola na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, estado onde nasci e resido. A nossa tarefa foi criar e defender um projeto de lei na Câmara dos deputados. Propomos uma estação de segurança nos bairros contra o abuso feminino. Foi a primeira vez que pensei e agi a favor do assunto. Passaram-se 15 anos e o Brasil evoluiu um pouco, mas o sofrimento das vítimas continua aí, estampado nos números que compartilhamos nas redes sociais. O problema é o brasileiro. O problema são as pessoas. Precisamos, ainda, atravessar a linha de discriminação em todos os âmbitos.

 

O que me parece pegar, no meio disso tudo, é o comportamento do dia a dia, uma amostra pequena para esta causa grande: coisa legal um homem estar no Tinder. Coisa de galinha a mulher exibida como um prato no menu. Sim, diversas bocas bestas falam isso (femininas e masculinas).

 

Com uma crônica não se faz história, mas com palavras pensadas antes de serem ditas, sim. Podemos reproduzir a igualdade a começar pelos nossos pensamentos. A minha bandeira é a seguinte: ser feminista sem deixar de ser feminina (um desafio muito sensível). Afinal, não somos iguais, mas temos os mesmos direitos. Quem tá junto?

 

 

 

2017 02 Sobre ver o outros

Sobre ver o outros

 

             O mais legal de viver é que a gente vai crescendo não só na idade, mas também na nossa forma de pensar, de encarar a vida, de aceitar os outros. E tem uma coisa que eu descobri na década dos meus vinte aninhos e gostaria de compartilhar hoje com vocês, minhas atentas leitoras (na verdade, descobri muitas coisas, mas a que eu vou contar hoje é uma das principais). O que eu descobri é fácil de entender, mas difícil de aplicar. É tão parte natural da vida que, se fosse simples, seria a solução do mundo. A descoberta, então, é que a gente acha que se importa com os outros, que faz um monte pelas amigas, pelos pais, pelo mundo, mas a verdade é que sempre podemos fazer um pouco mais.

Bem, não é lá uma descoberta superdivertida, incrível, U-AU. É papo cabeça, na verdade. Mas, quando eu olho para trás, vejo que poderia ter investido mais um tempo, naquele dia X, para uma conversa Y com a pessoa Z. E que esse XYZ formariam, juntos, uma determinada experiência. Uma experiência maior. Independente da matemática e das fórmulas que usamos ao longo dos nossos dias, o que eu coloco é a possibilidade de nos relacionamos melhor com os outros. Sabemos que existe uma só vida, mas, no entanto, fazemos muitas besteiras no lugar de viver momentos valiosos. Aqueles conselhos de quem é mais velho, como o seu avô, são sempre os mais sábios. O principal deles, que é um valor universal: dedique-se a quem você ama. A recompensa é o amor recíproco. Gosto de pensar em amarmos como amam os animais. Quem tem um em casa sabe: faça o dia que for, nos oferecem carinho em abundância. Seja a pessoa que o seu cachorro acha que você é. Essa última frase eu li em um quadrinho por aí e achei mais do que verdadeira: poderosa! O seu cachorro te acha a pessoa mais incrível do planeta, livre de maldade e só cheia de boas intenções. Intencione-se ao bem. Todo dia. A cada dia. Por todos. Meu lema 2017: ser gentil. Se os adesivos colados nos carros por aí, escritos gentileza gera gentileza fossem levados a sério, a descoberta lá de cima seria uma prática comum. Mas, antes de colocar a mão na massa, é preciso aprender a sua receita. Primeiro de tudo: veja o outro. Conscientize-se, em cada ação: aqui do meu lado mora alguém diferente de mim. Na sala de aula, no trânsito, onde for. Eu coexisto. Eu existo junto. Nunca separado. Por isso, a tolerância. Só ela gera gentileza. O primeiro passo pelo recomeço: tolerar o outro. Para depois conviver. Até amar.  Por favor, 2017. Seja assim.

Sempre julguei muito. Sempre me importei, também, como me julgavam. E, de repente, feito um clique na tecla enter do teclado (o mesmo teclado onde redijo essas palavras), eu entendi. Mudei. O enter num texto representa um novo parágrafo. E um novo parágrafo pode abrir, se assim quisermos, uma nova história. Não é possível reescrever os nossos dias. A maior incógnita da vida é que não sabemos o que ela poderia ter sido. Ela é, somente é. Agora. Mas, podemos escrever novos parágrafos. Deixar de se importar com as pequenezas. Nos tornarmos superiores – sempre em relação ao ser e não ao outro. Tolerar.

Comece o segundo mês do ano pensando no que vale a pena. E, antes de tudo, vale a pena se dedicar ao outro. Um minuto a mais e você beija a mãe antes de sair. Uns minutos extras e você reflete antes de falar. Para antes de agir. Doa. Desenvolve a consciência do outro: ele está sempre ali. Ele pode ser nosso inferno ou nosso paraíso. Escolher o primeiro é fácil. O segundo é um exercício insistente e, ao mesmo tempo, revelador. Só no paraíso encontraremos a leveza. Concluo com um pensamento que pipocou no meu Feed do Facebook. Está em espanhol (que tal evoluirmos também no quesito idiomas?).

 

No te enojes.

A veces el otro no entende.

Lo explicaste mil veces, pero no lo ve.

No es tonto. No es malo. No es indiferente. Es otro.

 

Por favor, 2017, nos faça mais gentis, tolerantes e dedicados. Ao outro. Que é um de nós.

 

Sem bomba, só amor

A gente conhece o inimigo bullying bem de perto. É provável que já tenhamos sido vítimas ou responsáveis.

Incrível pensarmos que o ser humano descobriu como fazer carros, celulares, chapinhas (!) e não descobriu, ainda, como fazer-se respeitar e ser respeitado.

Eu sofri e não me defendi. Ao contrário do que nos ensinam, levei muito desaforo pra casa. Fui criança sem autodefesa nem posição. Batiam-me verbalmente, e eu ia pra casa aos choros, me sentindo o pior ser, o menos querido e o mais errado.

Quem sofre bullying sente isso: que é um erro. Tem coisa pior pra se sentir?

Quando tinha meus sete anos, apelidavam-me e, eu, no máximo, apelidava-me com outro nome (criatividade pode
ser uma arma anti-bullying).

Hoje, tenho certeza de que é preciso se defender antes, não depois, como eu fazia, cada vez que escutava: Annie Gasparzinho (o personagem fantasma que tanto me assombrou nas séries iniciais).

Não se pode permitir ser atacado. É preciso dizer não, não aceito. E sem a necessidade de bater de volta, sem bombardear o outro em defesa. Dizer não aceito o apelido pode ser devastador: o outro chama e você vira a cara. Imagine a decepção!

De bomba em bomba, bum! Tudo explode. A reação à ação deve ser positiva, o melhor que puder ser, ou seguimos com as falhas, as brigas, as guerras. Precisamos provocar o inverso: conversa, calma, respeito. Amor.

Eu sei que falo muito sobre o amor. É porque acredito de verdade nele. No seu poder de acolher e transformar.

Se a gente ama incondicionalmente, ache a pessoa bonita ou feia, certa ou errada, compreendemos as diferenças. E fica mais fácil entendermos que jeitos, aparências e pontos de vista são como o arco-íris: existem mil tons entre seus feixes de luz.

Amar é acolher e não excluir. E, numa sexta-feira qualquer de verão, tem algo que desejamos mais do que ser bem acolhidas? <3

365 oportunidades

Tudo novo, de novo

Tem algo em que eu sou PHD (a sigla em inglês que significa Doutor da Filosofia e confere o título mais alto de reconhecimento a um profissional).

Sou PHD em compartilhar energia. Isso mesmo. E não me julgo assim, os outros o fazem: me chamam de latinha de energético em forma humana (sem risos, é sério). E, apesar de isso até ser prejudicial, porque não paro um minuto sequer, também é uma grande qualidade – sendo nada modesta. A energia é o que faz, naqueles dias difíceis, levantar cedo, cansada e cabisbaixa, e saber que vale a pena. Porque até o combustível da pessoa mais enérgica falha, às vezes. Mas, se existe estoque dele, a fonte nunca seca. E, nessa vida que começa nova todos os dias, precisamos guardar litros e litros de energia boa.

Ela é o que nos leva a fazer de novo a prova que não deu certo ou o plano que não se concretizou. Ter energia é ter vontade, impulso para avançar sem medo. Se o ano que passou não foi o nosso preferido, é ela que nos faz acreditar em fazer tudo novo, de novo. Só depende da gente. E, aproveitando, novo ano é a oportunidade de repor a energia e levantar o bumbum do sofá.

Todo dia é dia de rever como usamos a nossa energia. Porque, também, quase diariamente surge o medo, a preguiça e o desânimo. O seu antídoto é a vontade inesgotável em afirmar: eu consigo. E, dentro disso, cada atitude conta: se você acordou pesada, indignada com a vida, vale aquela dica de respirar em 1, 2, 3… Se respondeu mal para a mãe, volte lá e tente outra resposta. Reconstruir a si mesmo é um exercício que só os sábios praticam – por isso mesmo, se tornam sábios. E a sabedoria é a virtude dos melhores, ou, pelo menos, dos seres mais felizes.

Começar um novo ano é sempre uma forma de energizar a esperança – em si mesma e no mundo. De dizer: a vida é um desafio lindo em que eu posso me jogar com mais inteligência, em cada atitude. Afinal, as ações que nos acontecem são imprevisíveis, mas as reações são voluntárias – a gente escolhe.

Osho tem uma frase incrível que guardei no desktop do meu computador, marquei com coraçãozinho no celular e colei em papel na minha mesa. Para não esquecer. “A criatividade é a grande rebelião da existência”. No medo, na dúvida, na raiva: recrie a si mesmo. Para mim, criar e recriar é tão divertido quanto como comer quindim, ir para a balada, ler livros e assistir a seriado.

E que tal a gente reescrever as hashtags para 2016? #DescolaoBumbum #RespiraFundo #VaicomFé.
E, claro, #estamosjuntos

Annie Müller – 05.01.2016

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Geração Snap

Que a vida passa rápido, a gente só descobre vivendo. Ou, agora, criando Snaps. Porque o Snapchat é a prova real dos nossos dias alucinados: tudo passa, tudo voa, e 24 horas depois o mundo mudou.

Não fui uma adolescente que mudava toda hora. Cabelo colorido, tatuagem escondida – esse tipo de rebeldia. O máximo da minha foi o piercing no umbigo, depois da Gisele Bündchen lançar a moda. Eu tive de borboleta e estrela. Adoro borboletas e estrelas. E corações. Menina-mulher e seus símbolos óbvios, é verdade.

Tem pessoas, sejam elas adolescentes ou adultas, que precisam mudar mais. Mudar muito. Por quê? Sempre me perguntei, achando que tinha algo errado comigo. Normalidade sem graça! Medrosa! Falta criatividade, Annie! – entonava em segredo. E, feito doses pequeninas de ousadia, experimentava uma peça de roupa que ninguém tinha usado, trocava de estilo de música e de esporte preferido. De garotos, também: as paixões, sim, mudavam toda hora.

Quando entrei na faculdade de comunicação, piorou: precisava ser diferente. Ousar no look para, pelo menos, parecer criativa. Era o que eu achava. Era o que eu não era.   

Precisamos ser o que somos. Essa é conclusão mais séria a qual já cheguei. No meu mês de aniversário, fico assim pensativa: estou sendo quem sou? Estou vivendo o que desejo viver? Ano após ano, desde os meus 14, reflito em excesso. Não é papo de quem vira uma década. É a cabeça de quem sempre pensou até os neurônios desistirem.

Acredite: melhor pensar a mais do que de menos. Estou sempre com sede de pensar. É quase um verbo no gerúndio esse meu estado mental. E não é pensando que a gente se entende? E também lendo, conversando, ouvindo, compartilhando, escrevendo, gravando.

Entrei no Snapchat por isso – para saciar um pouco da sede. Porque, se o Snap falasse e fosse uma garota, diria bem assim: piscou o olho, perdeu a oportunidade, amiga. O mundo é agora, o mundo é urgente, em real-time. Por isso mesmo, a palavra snap. Estalo, em português. Piscou, passou.  

Mas, enquanto algumas coisas passam, outras ficam. E, então, descobri que não é a camiseta divertida que vai me fazer mais criativa. São, sim, as minhas ideias. Que não é o cabelo colorido que me faz rebelde, mas a capacidade crítica de me rebelar quando está errado. Que não é sobre mostrar – é sobre ser.

Ser. Pequena palavrinha. Poderosa palavrinha. Seja a mudança que deseja ver no mundo, deixou Gandhi. E você, o que quer deixar, além de um monte de snaps para trás?

Annie Müller – 03.11.15

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Amigas Pulgas

Acho que nasci com pulgas. Aquele bichinho que volta e meia o seu pet tem. Aquele que faz com que a Mel, minha irmã canina, se coce em rebuliço, coitadinha!

Estou sempre com pulgas atrás da orelha. Com perguntas sem respostas, com vontades sem saciar, com mais ideias do que dias no calendário.

Cães com pulgas? Nós mandamos ao veterinário para matar o bichoso e o nervosismo. Pessoas com pulgas? Devemos fazer o contrário: alimentar para continuarem curiosas. Porque pulga, como usamos na língua popular brasileira, é sinônimo de algo que nos tira o sono, bom ou ruim. Na sua maioria, são pulguinhas prazerosas, que nos levam adiante.

Quem não tem pulgas não evolui, pausa no tempo e na preguiça. É um ser médio, quando fomos criados para voar alto. Os atletas olímpicos (em 2016 poderemos assisti-los ao vivo no Rio de Janeiro!) são a prova real de que nascemos para o movimento. Nosso corpo é ilimitado se dermos chances para ele progredir.

Assim também é a mente humana. Quem não se impressiona com a história de um grande líder como Nelson Mandela ou Steve Jobs? Eles desafiaram a própria humanidade – e nós assistimos boquiabertos aos filmes sobre suas vidas, como se mostrassem super-heróis da ficção. Haja pulga!

As crianças parecem feitas de milhares delas. Observe: não existe dia sem pergunta na vida de uma pessoinha aos três anos. Ou sem tocar um objeto novo. Crianças são assim. E vão entendendo o mundo. No seu mês de outubro, convido as nossas pulguinhas a invadirem mente e corpo, movimentando um e outro até a experimentação.

Enquanto um professor na faculdade me disse para focar no que eu desejava ser, as pulgas me diziam para estudar jornalismo, publicidade e psicologia. Tudo ao mesmo tempo. Elas que, na adolescência, estavam presentes em todas as minhas tentativas, apoiadas pelos meus pais também pulguentos. Em algumas eu fracassava, noutras eu persistia. Foi com essa forma experimentadora de aprender que tentei vôlei e basquete (do alto dos meus 1,60 metros), futebol (apesar do medo da bola), salto em distância e altura, ballet, jazz e dança contemporânea, yoga e corrida. Por enquanto, fiquei com os últimos dois. E você, em qual esporte se arrisca para encontrar o que mais a diverte, hein?

Pulguinhas divertem. Coçam, é verdade. Mas nos levantam do sofá para ver o mundo lá fora – o que tem tudo a ver com descobrir o nosso mundo de dentro.

No banheiro, tenho pendurada uma plaquinha com a frase de Carl Gustav Jung, que diz: “quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”. Façamos os dois. E jamais matemos as queridas pulguinhas.

Annie Müller – 15.09.2015

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Menina de conteúdo

Por que nenhum dos meus relacionamentos dá certo? Talvez esta seja uma das perguntas mais recorrentes entre as garotas (as que conheço e a que já fui). E, desde sempre, minha teoria é a mesma – e vem se comprovando ao passar dos dias. Menina que tem amor é menina que tem conteúdo. Rolo que vira namoro é porque tem aqueles componentes básicos: conversas até cair a noite, gargalhada sem pudor, gosto de músicas e livros em comum, ou, ainda, discussão sobre músicas e livros diferentes. Rolo que vira namoro é porque tem conteúdo.

Essa palavrinha – conteúdo – está super na moda. No mundo das redes sociais, é só o que se fala por aí. De fato: para se destacar na(s) rede(s) é preciso ser interessante. Escrevi um livro cujos personagens, o Pedro e a Rafa, começam a história se detestando. Quando, então, começam a refletir sobre ser adolescente, descobrem várias afinidades. Resultado? Segredo, mas uma pista: ele, que a achava uma garota boba sem assunto, e ela, que o achava um nerd nada divertido, descobrem ter muitas vontades iguais. O elo? Ele mesmo: o conteúdo, o ingrediente que faz o papo render.

Eu sei que vocês já usam o Snapchat há mais tempo do que eu. Mas, nem por isso, me desconsiderem. O que importa, aqui, é o que vamos gravar e mostrar. O que temos para dizer ao mundo? E o que ele tem para nos dar em resposta? Somos consequência dos nossas ações e palavras. Somos espelho que reflete imperfeições e singularidades. A beleza exterior é reflexo da interior. Já ouvimos isso centenas de vezes, não é mesmo? Pense agora sobre o que a faz especial. A paixão pela dança? A voz afinada? O talento para o esporte? A escrita que flui fácil? Qual é o seu conteúdo? Aquele que só você pode compartilhar?

Eu sei que na sua agenda já existem mil afazeres por conta da escola e mais ainda na de quem trabalha. No entanto, acredito muito na força de vontade que os grandes têm: aqueles que tiram um tempo para colocar suas outras paixões em prática. E, só na prática, para os nossos maiores sonhos se revelarem.

Invistam na saia nova, na bolsa, no sapato (alguma doida, como eu, pelo último item?). Mas invistam também no livro, na revista, no blog (o de moda e o de notícias). Conteúdo se cria buscando, não nasce sozinho. E fica para sempre.

Eu vivo repetindo uma frase por aí (quem me segue, sabe): Ler é poder, já disse o francês Jean-Paul Sartre. O único poder que ninguém nos tira!

Vai lá, menina de conteúdo. E conquiste o amor próprio e o do gato, que vai ficar fã de você, curtir sua foto, adicionar no Whats, seguir no Snap e, quem sabe, oficializar o namoro. <3

Annie Müller – 20.08.2015